Radar SaaS – 500 Startups sabe quais botões apertar para impulsionar as SaaS brasileiras

Um passeio pela cultura e pelos modelos de aceleração da 500 Startups, uma das principais referências no ecossistema mundial de startups, e o que as empresas brasileiras investidas por ela têm a dizer sobre essa experiência

Uma breve conversa com um empreendedor, cujo negócio tenha passado por um ciclo de aceleração, e já fica clara a importância das aceleradoras na vida e na saúde da maioria das startups que deram certo. Em muitos casos, as evidências são irrefutáveis: não fossem os aprendizados absorvidos na aceleração, o limbo habitado pelos negócios que fracassaram receberia novos e eternos moradores.

Se existe uma receita infalível para garantir o sucesso de uma startup, esteja ela em early stage ou em fase de growth, não há como dizer. Contudo, sempre que se fala nos principais cases de empresas SaaS brasileiras que passaram por um processo de aceleração e que hoje são referência, um nome vem à mente: 500 Startups.

Prazer, 500 Startups

A 500 Startups, também conhecida como Five (de five hundred), é uma plataforma global cujo objetivo é criar, fomentar e fortalecer ecossistemas de startups. “Entendemos esse processo como o atual propulsor da nova economia da informação”, revela Rodolfo Pinotti, associado de operações especiais da 500 Startups focado nos mercados brasileiro e latino americano.

Desde que começou suas atividades em 2010, a Five já investiu em mais de 1.900 startups desde o primeiro batch de aceleração. Com uma equipe de 150 pessoas atuando em mais de 20 países, está indo para o 22º batch, que começa dia 17 de julho, em São Francisco – ainda dá tempo de se inscrever -, e vai durar 4 meses.

Além dos investimentos e dos processos de aceleração, a 500 Startups oferece, ainda, treinamento executivo para outros venture capitals e serviços consultivos para empresas e governos, realiza uma série de eventos e opera em diversas frentes de atuação. “No que tange às investidas brasileiras, realizamos até o momento 35 investimentos, sendo que a maioria participou de nosso processo de aceleração no Vale”, comenta Pinotti.

Retiro com todos os membros do time da 500 Startups em 2017

500 valores em 5

Ser referência no segmento em que se atua não é para qualquer um. Na verdade, é para pouquíssimos. Não para menos, essa posição de destaque faz dessas empresas igualmente admiradas e invejadas pelas demais. Um dos pontos de maior relevância para conquistar esse status é ter uma base muito bem fundamentada de valores que regem toda e qualquer ação de cada membro da equipe.

A Edools, que é uma plataforma EAD para criação, gerenciamento e venda de cursos online, foi acelerada pela Five no começo de 2015. Na opinião de seu cofundador e CEO, Rafael Carvalho, a troca de experiências com as pessoas que se conhece ao longo de todo o processo reflete muito dos valores da 500 Startups. “Tem o time de aceleração e o time que cuida da administração da Five. O mais bizarro é que todo mundo já vendeu ou já recebeu investimento para uma startup: o cara da administração contando como vendeu a empresa dele para o Google, o outro falando da negociação que fez com a Amazon, do problema que teve com o sócio. A densidade da vivência de investimento e negociação que se tem em 4 meses de aceleração nos faz crescer muito”, revela.

Os cinco valores que norteiam todas as atividades e iniciativas tomadas pela 500 Startups são:

Be bold, be humble. Forgive mistakes, but not timidity.

Tão importante quanto ser ousado nas ideias é ser humilde nas atitudes, o que não quer dizer se abster de entrar em ação, ser dono de suas verdades e estabelecer relações de troca. Os erros são perdoados porque são cometidos por quem encara os desafios de frente, diferentemente da timidez que não é perdoada porque quem se deixa afrontar por ela não vai à luta.

Move fast, break things. Iterate to success. Fast.

A rapidez no agir – ou mesmo no reagir – e a capacidade de desconstruir devem ser somadas à resiliência, para que os processos possam se repetir pelo tempo que for necessário para se chegar ao sucesso. Contanto que seja rápido!

Challenge yourself, and others. Hold each other accountable 100% of the time.

Desafiar a si próprio e aos outros é a melhor forma de estar sempre se aperfeiçoando, assim como manter, uns aos outros, com responsabilidades reais durante todo o tempo. Quanto maior a exigência, de forma saudável, entre os membros de um time, mais curto e rápido é o caminho para a excelência.

Be diverse and inclusive. Diversity and inclusion is our strategy and moral imperative. Embrace it.

A partir da diversidade e da inclusão é que nasce a normalidade da vida, e a humanidade se torna plena, em todas as suas formas e cores. Por isso diversidade e inclusão são valores estratégicos e imperativos morais que devem ser bem-vindos e incorporados.  

Have fun. It’s our job to make money and GSD, but it’s also our job to have fun.

Dedicar-se a um negócio demanda uma entrega de 24 horas por dia, durante os 7 dias da semana. Por isso, além de fazer parte do trabalho cumprir com os compromissos profissionais e ganhar dinheiro, também faz parte de divertir durante todo esse processo para valer a pena. (GSD? Get shit done.)

Quem embarca na 500 Startups

Com tantas startups brigando por uma das concorridas vagas nos batches da 500 Startups, saber como funciona o mindset de seus investidores confere uma vantagem maior aos times que querem estar no páreo.

Elizabeth Yin, uma das sócias da Five, revela parte do segredo em uma lista de perguntas que as empresas devem estar preparadas para responder.

Os principais pontos de atenção dos investidores dizem respeito a 5 fatores considerados fundamentais para o sucesso de um processo de aceleração: equipe, problema, solução, aquisição de cliente e mercado. E aqui vai uma dica importante: eles não gostam nadica de nada de encheção de linguiça!

No caso da Edools, dois pontos foram cruciais para a startup estar entre as selecionadas pela 500 Startups, na opinião do CEO, Rafael Carvalho. O primeiro deles diz respeito à cultura da empresa, que é guiada muito menos pelo vapor e muito mais por resultados.

“Somos o low profile das startups: não ficamos gritando, entregamos resultado. Isso casou com o mindset da Five”, afirma. O segundo ponto diz respeito aos resultados concretos que a Edools tinha para apresentar quando se inscreveu para o batch. “Os empreendedores geralmente falam das suas empresas no futuro e o que conta para a 500 Startups é o tempo verbal no passado: o que você já fez, o que já realizou, o resultado que já entregou”, diz.

A Edools nasceu para atender um problema que o próprio time de empreendedores que a fundaram tinham com o Bizstart, uma empresa de treinamento com foco em empreendedorismo para o público jovem, também criada por eles. “A Edools já nasceu com um primeiro cliente, o que sempre foi uma vantagem competitiva para nós, por já conhecermos o lado do nosso cliente”, explica.

Fundada em 2014, a Nazar, que oferece uma solução SaaS para otimização de banco de dados e aperfeiçoamento de performances, foi uma das startups brasileiras aceleradas pela 500 Startups no 20º batch, que começou em janeiro/2017 e encerrou no começo de maio/2017. Olhando agora o CEO, Antônio Inocêncio, consegue entender o link entre o fato da Nazar atuar no mercado de dados e a intenção da Five em lançar uma nova linha de investimentos focada nesse nicho de mercado.

Porém, ao longo do processo de aceleração Inocêncio já identificava o valor que a 500 Startups dá para a diversidade como um dos diferenciais que levaram a Nazar a ser selecionada. “A Five preza pela diversidade, não só de gênero, mas de negócios. Busca por  mercados carentes de desenvolvimento fora dos Estados Unidos, que não estejam sendo explorados por outro fundos”, aponta.

Pré-500, Pós-500

Não é exagero dizer que a Five tem o papel de divisor de águas na história das empresas que passaram por seu processo de aceleração. Muitos negócios que já estavam queimando estrada há algum tempo sem sair do lugar, e outros que ainda nem tinham entrado na pista, conseguiram de forma prática identificar e vencer fraquezas que estavam emperrando seu mecanismo de funcionamento.

Para o time de empreendedores do  ContaAzul foram 3 anos patinando até deslanchar com a plataforma, criada para donos de pequenas empresas organizarem, de maneira rápida e simples, operações de venda, compra, estoque, conciliação bancária e gestão financeira, permitindo que eles trabalhem integrados com seu contador e eliminem a papelada e o trabalho manual repetitivo. “Nosso desconhecimento de como funcionava um modelo de negócio levou a uma sequência de falhas que, apesar de ter gerado um aprendizado enorme, quase nos levou a desistir em 2011”, afirma Vinicius Roveda, fundador e CEO da ContaAzul. Nesse mesmo ano, foram selecionados para serem acelerados pela 500 Startups. De lá para cá, a empresa – que em porte e faturamento já não é mais considerada uma startup – cresceu sua equipe para 250 funcionários e conta com clientes em todos os 26 estados brasileiros.​

O processo de aceleração da Five foi transformador, também, para o time da Linte, que oferece uma plataforma de gerenciamento de processos e contratos dedicada a aumentar a produtividade dos advogados. Sob a perspectiva do CEO, Gabriel Senra, os ganhos aconteceram tanto para o negócio, quanto para os empreendedores. “Em relação ao negócio, foi importante para modelar a máquina de venda, entender os canais de distribuição e alocação de recursos, fazer benchmarking e refinar com velocidade tanto práticas de desenvolvimento de produto quanto conhecimentos de como colocá-lo numa trilha aderente às necessidades do mercado”, frisa.

O acesso livre a mentores e outros empreendedores resultaram em uma carga de referências positivas e boas práticas que colocaram o time da Linte em uma trilha de interação extremamente produtiva de desenvolver, testar e entregar resultados muito rapidamente. “Enquanto empreendedores, tivemos nossas vidas transformadas. Nossa barra de entrega e produtividade aumenta muito quando estamos expostos a um ambiente como o Vale do Silício. Aprendemos a pensar grande e, principalmente, abandonar a prática de não falar a verdade”, completa Senra.

Aculturados pela Five

Um souvenir que todas as empresas que passam pelo processo de aceleração da 500 Startups trazem na mala é a referência de cultura empresarial dos americanos. Potencializada pela atmosfera do Vale de praticidade e nenhum tempo a perder, essa cultura de ser pontual nas considerações e dizer a mais pura verdade de forma direta, doa a quem doer, vai de encontro com o perfil amistoso e improdutivamente cortês dos brasileiros. É aí que o choque de realidade acontece uma lição muito valiosa é aprendida.

Gabriel Senra, da Linte, trouxe esse aprendizado para casa e fez dele um novo way of life no dia a dia do time dentro da empresa. “Temos uma prática de tapinha nas costas e de não agir com sinceridade absoluta aqui no Brasil que nos impede de ser práticos”, destaca.

“No Brasil, estamos muito acostumados a não falar ‘não’ para as pessoas, a não dizer o que tem de melhorar. O americano, nesse ponto, é muito mais pragmático: ele aponta o que está ruim”, esclarece Rafael Carvalho, da Edools. “No início é um choque, porque não estamos acostumados a ouvir isso, mas transformou a nossa mentalidade de um jeito muito forte”, complementa.

Essa praticidade da cultura empresarial americana resulta em ganhos relevantes para o ecossistema de startups: como os investidores são extremamente pontuais em suas avaliações, otimizam seu tempo e têm chance de seguir em busca de negócios inovadores para colocar seu dinheiro. “Os investidores são mais disponíveis lá, eles que vão atrás das empresas, que as procuram, principalmente as que estão no início. Leva a melhor quem conseguir descobrir os futuros grandes negócios ainda nos estágios iniciais”, observa Antônio Inocêncio, da Nazar.

Dave McClure, o homem por trás do negócio

Inegavelmente, a cultura da 500 Startups reflete a forma de pensar e viver de seu sócio-fundador, Dave McClure. A forma direta e visceral com que lança sua sinceridade sobre empreendedores, confere a ele o estigma de não causar uma boa impressão entre os públicos pelos quais transita. Por outro lado, ter contribuído para mudar o destino de quase 2 mil startups confere a ele autoridade suficiente para ser levado em conta. “Se você não é honesto com a pessoa que fundou a empresa, você está prestando a ele ou a ela um desserviço. Simples assim”, enfatiza em entrevista para o site da CeBIT.

Para McClure, se restringir a investimentos financeiros não é nada mais do que assinar um cheque em branco. Ele entende que o papel da aceleradora vai muito além disso, não para menos garantiu que a Five investisse tanto tempo e dedicação para reunir um grupo realmente forte de mentores e amplo em disponibilidade de recursos para o ecossistema de startups. “Um terço de nosso time não é composto por americanos, nós falamos 20 idiomas diferentes”, enaltece o CEO da 500 Startups que, atualmente, investe em negócios em 20 países diferentes. “Isso é bastante incomum para uma empresa de venture capital do Vale do Silício”, acrescenta.


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